20080121

Metamorfose

Pois é…
Supostamente sai ás Segundas… ou.. direi que deveria certamente… contudo a vida soma em nós diversas experiências; as quais nos tentam para que surja a falha…
De facto, traído pela agenda, viu-se o blog em lacuna precisamente na sua segunda Segunda-feira.
Será este um vazio de assunto.. Questionam-se…
Será esta uma antevisão da falta de sentido de existência do próprio blog..
O tempo o dirá.. contudo.. não será por falta de assunto que ele possa perder sentido em existir.

Vive em mim o reencontro.. a procura da razão e com ela a constante metamorfose da vida…
Amadurece-se
.. deixo desta vez um poema.. sem grande reflexão pessoal mas contudo ajudará a situar o blog nos demais.
F


METAMORFOSE - de Jorge de Sena
“Ao pé dos cardos sobre a areia fina
que o vento a pouco e pouco amontoara
contra o seu corpo (mal se distinguia
tal como as plantas entre a areia arfando)
um deus dormia. Há quanto tempo? Há quanto?
E um deus ou deusa? Quantos sois e chuvas,
quantos luares nas águas ou nas nuvens,
tisnado haviam essa pele tão lisa
em que a penugem tinha areia esparsa?
Negros cabelos se espalhavam onde
Nos braços recruzados se escondia o rosto.
E os olhos? Abertos ou fechados? Verdes ou castanhos
no breve espaço em que o seu bafo ardia?
Mal respirava? Ou só uma luz difusa
se demorava no seu dorso ondeante
que de tão nu e antigo se vestia
Da confinada ausência em que dormia?
Mas dormia? As pernas estendidas,
com um pé sobre outro pé e os calcanhares
um pouco soerguidos na lembrança de asas;
as nádegas suaves, as espáduas curvas
e na tão leve sombra das axilas
adivinhados pêlos… Deus ou deusa?
Há quanto tempo ali dormia? Há quanto?
Ou não dormia? Ou não estaria ali?
Ao pé dos cardos, junto à solidão
quase lhe tocava do areal imenso,
do imenso mundo, e as águas sussurrando –
- ou não estaria ali?... e um Deus ou Deusa?
Imagem, só lembrança, aspiração?
De perto ou longe não se distinguia.”

20080107

200701

“Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem, a saber: 1.º – peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor; 2.º – peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava a sua fidelidade, ele pensou que, lá de dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o mundo da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.”
Autor a revelar posteriormente


Que escrever num princípio…
Sempre encontrei em mim uma enorme dificuldade na tarefa de preencher o vazio com palavras; isto em detrimento do gesto.

Decidi portanto começar com um texto que me fora apresentado de forma lida há alguns anos. Fica portanto uma homenagem em memória do que o texto possa significar.
F